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Estadao.com, 2011

Posted on 5th January, by in Print.

Estranhas e miúdas criaturas

Difícil definir o que são Los Grumildos – objeto da exposição que o Sesc Pompeia apresenta a partir de hoje. Não é errado dizer que são pequenos bonecos. Criaturas – com não mais do que 30 cm -, a combinar feições humanas com traços de animais. Também cabe ressaltar que carregam, ao mesmo tempo, algo entre divertido e sórdido, pornográfico e ingênuo. Um quê de grotesco e delicado. Mas todos esses adjetivos e explicações soam demasiadamente imprecisos na hora de descrevê-los.

Los Grumildos foram criados pela peruana Ety Fefer. Uma conversa com a artista, porém, é de pouca valia na tarefa de elucidar qual é, afinal, a natureza desses seres imaginários. No Brasil desde a última sexta-feira, Ety fala dos Grumildos com a naturalidade de quem os conhece desde a infância. “Eles existem desde sempre”, diz ela, sem saber ao certo quando e como surgiu a inspiração para as marionetes que já rodaram o mundo.

Se examinarmos as poucas pistas que Ety nos oferece, dá para dizer que os Grumildos saíram dos desenhos que seu pai fazia quando ela ainda era uma menina. Rabiscos de monstrinhos que ele traçava nos papéis que cobriam as mesas dos restaurantes de Lima. “Ficava encantada com esses desenhos. E os batizei com esse nome. Mas os meus Grumildos foram se tornando muito diferentes dos dele.”

Ety é, em certa medida, o avesso de suas bizarras criações. Discreta, tímida, reservada, diz-se avessa a entrevistas. Especialmente para televisão. “Fico paralisada quando ligam a câmera.” E, tal qual uma artesã, gosta de discorrer mais sobre como são feitas as suas criaturas do que de se perder em elucubrações conceituais ou suposições teóricas.

Em nenhum momento evoca a aura de Charles Bukowski que alguns críticos apontam em sua obra. Tampouco faz referências a autores, a livros ou a imagens da mitologia. Conta que, no início, gostava de observar figuras marginais, homens e mulheres proscritos que servissem de mote para os seus monstros em miniatura. “Ficava prestando atenção em lugares como a Rua Augusta que vocês têm aqui. Em bordéis, em boates.” Mas, com o tempo, tudo isso se tornou desnecessário. “Os Grumildos estão dentro de mim. Todo mundo carrega um Grumildo dentro de si”, comenta, como a referir-se aos demônios interiores de cada indivíduo. “Hoje, eles surgem naturalmente. E aparecem especialmente durante as viagens. Voltei da Austrália com um monte de Grumildos aborígenes. E, certamente, sairei daqui com ideias para vários Grumildos brasileiros”, diz ela, que já esteve no País em 2010, para uma breve apresentação em Santos.

De tudo um pouco. Outra missão ingrata é a de tentar definir a natureza do trabalho de Ety Fefer. Trata-se de uma exposição de artes visuais? De um conjunto de marionetes? De um teatro mecânico? Um pouco de tudo isso. E nada disso exatamente.

Feitos de plasticina – uma massa de modelar que lembra a argila -, os bonecos são acoplados a motorzinhos e movimentam-se de maneira independente. Estudado de maneira minuciosa, cada gesto entrega laivos da personalidade desses seres.

Distribuídos em grupos, eles são apresentados em vitrines. Paisagens que lembram o submundo de qualquer grande cidade: Um bar decadente. Quartos de bordel. Ruas sujas e baldias. No passeio por essa exposição, o espectador é transformado em voyeur. Vislumbra cenas de lascívia, entrevê um amontoado de aberrações. Tem a sensação de percorrer um daqueles antigos circos de horrores, onde se exibiam monstruosidades. Ou de mirar a si mesmo em um espelho distorcido.

Se a dificuldade de rotular os Grumildos inibiu sua difusão logo nos primeiros anos, o efeito hoje é o oposto. Desde 2004, quando foram vistos em Barcelona, os Grumildos já estiveram em mais de 15 países. Participaram de eventos de artes visuais. De mostras de artes cênicas. De festivais de música. Sim, de música. Porque a trilha sonora é parte fundamental dessa obra.

Ety não descuida de nenhum dos detalhes. Assim como gasta horas – às vezes, dias – para colorir ou ajustar os movimentos de seus “filhotes”, ela também revela que emprega grande parte do seu tempo montando os “cenários” de suas exposições.

Na mala, trouxe mais de 20 litros de vinho para “servir aos amigos”. Foi passear em lojas no centro de São Paulo em busca de móveis antigos. Instalou lâmpadas coloridas e máquinas de fumaça para recriar um ambiente festivo de cabaré.

O trajeto por esse mundo estranho, ela diz, pode durar cinco minutos ou duas horas. Mas será sempre embalado por temas de jazz ou canções de Kurt Weill. São músicas novas e antigas que estão sempre a ser garimpadas, substituídas. E, ao menos pelas próximas semanas, também já ganharam a companhia dos sambas tristes de Cartola.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,estranhas-e-miudas-criaturas,664482,0.htm